HAKANAI

17 Março - 25 Junho 2022

Estar presente, legar presentes.

 

" A curva é importante, mas a reta também é importante, às vezes mais importante que a curva. 

Sem a reta a curva não aparece, você não vê a curva. A reta faz a curva aparecer. 

É a reta que faz ver a curva". 

Oscar Niemeyer

 

 

 

Esta exposição calca-se no encontro de duas poéticas convergentes e complementares. Tanto Francisco Baccaro quanto Daniel Mattar têm como importante referência visual e conceitual a cultura japonesa. O primeiro por influência de seu pai, o lendário marchand Giuseppe Baccaro que lhe apresentou livros e a arte japonesa, e o segundo, pelos anos vividos em Tóquio, nos anos 1990. Por isso, não à toa, escolheram a palavra hakanai (o instante, a efemeridade) para nomear esse diálogo. Em ambas as séries apresentadas nesta exposição a geometria presente é conseguida pela exatidão temporal do clique, um instante que não é simulado ou retocado e na precisão do gesto.  Outro aspecto de concordância entre suas poéticas e importante de ser ressaltado é a relação que estabelecem com a pintura.

 

As retas que surgem na arquitetura das fotografias de Francisco Baccaro são fruto da espera pelo momento ideal do dia para que a sombra ou a luz do sol delimitem as formas pretendidas e realcem as cores vibrantes de paredes, pisos e muros de edifícios. Nesta operação, texturas, opacidade e brilho das superfícies são ativadas e contrastadas. O resultado das fotos abstrai a localidade onde foram feitas, a periferia de Lisboa. Há, portanto, um duplo questionamento: a natureza da imagem (uma solução gráfica ou fotografia sem retoque?) e a quebra de expectativa imagética da capital portuguesa (patrimônio construído que não está no cartão-postal). Este desejo de abstração apoia-se na arte minimalista e seu jogo entre pintura e fotografia.

 

A efemeridade nas fotografias de Daniel Mattar reside no gesto preciso de sua mão com varetas de madeira embebidas em tinta, o que também o liga ao universo da pintura. Como na escrita caligráfica japonesa, o movimento tem que ser rápido e certeiro. O artista tem pouco tempo para acionar a máquina fotográfica e captar a volumetria desejada dos pingos de tinta antes de secarem. As gotas têm um corpo abaulado, curvilíneo e uma aparência orgânica e contrastam com o fundo colorido. Novamente nosso olhar é enganado pelo acabamento da imagem e acreditamos se tratar de uma imagem inventada digitalmente, mesmo olhando as fotografias ao vivo. Sentimos visualmente a textura do papel, dos pingos, mas não acreditamos que seja possível tal perfeição ter sido obtida por um método matérico, analógico. A insistência no labor, no trabalho de estúdio e no acompanhamento da impressão é um contraponto à voracidade das imagens digitais.

 

Ao andarmos por Hanakai temos um profícuo diálogo cromático e formal. A pequena diferença na paleta de cores e a utilização de retas e curvas nos faz pensar numa relação de yin e yang, polaridades que se interpõem e que se ressaltam mutuamente. Essas mesmas polaridades encontram-se no interior de cada série e no exterior como um conjunto. Este diálogo de fotógrafos estudiosos e atemporais é um grande convite para encantar e desafiar nosso combalido olhar num mundo ainda pandêmico. 

 

Cristiana Tejo

Lisboa, março de 2022.